Vamos a um laboratório de redação?

Vamos a um laboratório de redação?
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A palavra é o próprio homem. Somos feitos de palavras. Elas são nossa única realidade ou, pelo menos, o único testemunho de nossa realidade. Não há pensamento sem linguagem, nem tampouco objeto de conhecimento: a primeira coisa que o homem faz diante de uma realidade desconhecida é nomeá-la,
batizá-la. Aquilo que ignoramos é o inominado. Toda aprendizagem principia com o ensinamento dos verdadeiros nomes das coisas e termina com a revelação da palavra-chave que nos abrirá as portas do saber. Ou com a confissão de ignorância: o silêncio. E, ainda assim, o silêncio diz alguma coisa, pois está prenhe de signos. Não podemos escapar da linguagem. Na verdade, os especialistas podem isolar o idioma
e convertê-lo em objeto. Mas trata-se de um ser artificial arrancado de seu mundo original, já que, diversamente do que ocorre com os outros objetos da ciência, as palavras não vivem fora de nós. Nós somos o seu mundo, e elas, o nosso. Para capturar a linguagem não precisamos mais que usá-la. As redes de pescar palavras são feitas de palavras. (PAZ, Otávio. O Arco e a Lira, tradução de Olga Savary, 2? Edição, Ed. Nova Fronteira, RJ, p. 37)

O que é escrever e como fazer isso?

Escrever para matar o tempo. Escrever por obrigação. Escrever por profissão. Escrever para torriar presente a ausência. Escrever para manter próximos os elos distantes. Escrever para vencer o Espaço e o Tempo. Escrever para se encontrar ou se perder de vez. Escrever para dar vida eterna ao instante efémero. Escrever para se sentir solitário, mas escrever para se ter companhia na solidão. Escrever para se conhecer nas entranhas, mas escrever para romper a espessa crosta da individualidade que nos envolve. Escrever para criar pontes em busca do outro. Escrever para se ter a marca registrada do ser pensante. Escrever para explodir ou domar a paixão. Escrever como treino de inteligência ou para admirar a loucura da lucidez. Escrever para criar um ritual em que o homem é a própria magia. Escrever para se firmar com uma voz distinta no mundo em que se vive. Escrever para aceitar, negar e transformar o mesmo mundo. Escrever para se sentir vivo e renovar o grande estoque de palavras-mundo que há em nós.

Daí escrever para se obter uma vaga no ensino superior é uma decorrência natural do próprio processo de escrever. Decorrência natural, porém complexa, que começa com a consciência de que o homem mantém com a palavra uma relação umbilical. Ambos, homem e palavra, estão indissoluvelmente ligados. A palavra é o próprio homem, afirma Octavio Paz.

O nosso curso de redação não pretende ser um modelo acabado e suposta-mente perfeito do que seja escrever. Trilharemos caminhos diversos e multifacetados, já trilhados por especialistas em linguagem e por todos aqueles que escrevem. São meios que ofereceremos e não fins que determinem por você aquilo que pela própria natureza está em você: o seu mundo de ideias e sensações traduzido em palavras — as suas palavras; enfim, o seu estilo.

Como há uma ciência da linguagem e consequentemente um estudo dela, caberá a nós, professores de redação, detonarmos em você o seu fluxo de linguagem, para que no final do processo você se encontre nela, sendo você mesmo o próprio processo de busca e espera.

Esta abordagem não dispensa a consideração do valor dos estudos gramaticais, pois cabe à Gramática a tarefa de disciplinar a língua e a condição de ser um parâmetro eleito entre outros como um ponto referencial. É preciso, no entanto, que se tenha consciência de que o domínio dos expedientes linguísticos garante ao usuário do idioma a segurança para criar, com a própria língua, o discurso individual, sem o qual a língua não se refaz e o indivíduo se perde nela.

É de se esperar que, após estas argumentações, de caráter mais filosófico que linguístico, surja em você o medo de se perder num processo que o leve à liberação da linguagem. Medo aprendido no mundo em que vivemos, nas escolas por que passamos. Medo de perder um prémio ou de ganhar uma punição. Medo de se arriscar e de ousar. Medo de não ser aprovado. Medo de se ver refletido no próprio texto. Medo de viver a linguagem numa fantástica e real experiência. Medo…

Todos compartilhamos desse medo quando ousamos destacar a nossa voz acima do coro, mas é preciso tentar pelo menos uma vez o grito que explode a pessoa EU, para sentir o gozo da felicidade. A felicidade é vertical: aprofunda o ser e o redimensiona. É por isso que o Sistema nos ensina a culpa, numa tentativa de bloquear a felicidade e de impedir o autoconhecimento. Se palavra e pensamento formam um todo uno e indivisível, pensemos com palavras, para que possamos com elas escrever a nossa história, o que já é um índice de liberdade e uma opção deliberada pela felicidade.

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