Redação a partir de Clarice Lispector

Educação
março 1, 2013

“Entendo que para contar é necessário primeiramente construir um mundo, o mais mobiliado possível, até os últimos pormenores. Constrói-se um rio, duas margens, e na margem esquerda coloca-se um pescador, e esse pescador possui um temperamento agressivo e uma folha penal pouco limpa, pronto: pode-se começar a escrever, traduzindo em palavras o que não pode deixar de acontecer” (Pós-escrito a O Nome da Rosa, Umberto Eco)

Leia atentamente o texto abaixo:

FELICIDADE CLANDESTINA

Ela era gorda, baixa, sardenta, e de cabelos excessivamente crespos, meio arruivados. Tinha um busto enorme, enquanto nós todas ainda éramos achatadas. Como se não bastasse, enchia os dois bolsos da blusa, por cima do busto, com balas. Mas possuía o que qualquer criança devoradora de histórias gostaria de ter: um pai dono de livraria.

Pouco aproveitava. E nós menos ainda: até para aniversário, em vez de pelo menos um livrinho barato, ela nos entregava em mãos um cartão-postal da loja do pai. Ainda por cima era de paisagem do Recife mesmo, onde morávamos, com suas pontes mais do que vistas. Atrás escrevia com letra bordadíssima palavras como “data natalícia” e “saudade”.

Mas que talento tinha para a crueldade. Ela toda era pura vingança, chupando balas com barulho. Como essa menina devia nos odiar, nós que éramos imperdoavelmente bonitinhas, esguias, altinhas, de cabelos livres. Comigo exerceu com calma ferocidade o seu sadismo. Na minha ânsia de ler, eu nem notava as humilhações a que ela me submetia: continuava a implorar-lhe emprestados os livros que ela não lia.

Até que veio para ela o magno dia de começar a exercer sobre mim uma tortura chinesa. Como casualmente, informou-me que possuía As Reinações de Narizinho, de Monteiro Lobato.

Era um livro grosso, meu Deus, era um livro para se ficar vivendo com ele, comendo-o, dormindo-o. E completamente acima de minhas posses. Disse-me que eu passasse pela sua casa no dia seguinte e que ela o emprestaria.

Até o dia seguinte eu me transformei na própria esperança da alegria: eu não vivia, eu nadava devagar num mar suave, as ondas me levavam e me traziam.

No dia seguinte fui à sua casa, literalmente correndo. Ela não morava num sobrado como eu, e sim numa casa. Não me mandou entrar. Olhando bem para meus olhos, disse-me que havia emprestado o livro a outra menina, e que eu voltasse no dia seguinte para buscá-lo. Boquiaberta, saí devagar, mas em breve a esperança de novo me tomava toda e eu recomeçava na rua a andar pulando, que era meu modo estranho de andar pelas ruas de Recife. Dessa vez nem caí: guiava-me a promessa do livro, o dia seguinte viria, os dias seguintes seriam mais tarde a minha vida inteira, o amor pelo mundo me esperava, andei pulando pelas ruas como sempre e não caí nenhuma vez.

Mas não ficou simplesmente nisso. O plano secreto da filha do dono de livraria era tranquilo e diabólico. No dia seguinte lá estava eu à porta de sua casa, com um sorriso e o coração batendo. Para ouvir a resposta calma: o livro ainda não estava em seu poder, que eu voltasse no dia seguinte. Mal sabia eu como mais tarde, no decorrer da vida, o drama do “dia seguinte” com ela ia se repetir com meu coração batendo.

E assim continuou. Quanto tempo? Não sei. Ela sabia que era tempo indefinido, enquanto o fel não escorresse todo de seu corpo grosso. Eu já começara a adivinhar que ela me escolhera para eu sofrer, às vezes adivinho. Mas, adivinhando mesmo, às vezes aceito: como se quem quer me fazer sofrer esteja precisando danadamente que eu sofra.

Quanto tempo? Eu ia diariamente à sua casa, sem faltar um dia sequer. Às vezes ela dizia: pois o livro esteve comigo ontem de tarde, mas você só veio de manhã, de modo que o emprestei a outra menina. E eu, que não era dada a olheiras, sentia as olheiras se cavando sob os meus olhos espantados.

Até que um dia, quando eu estava à porta de sua casa, ouvindo humilde e silenciosa a sua recusa, apareceu sua mãe. Ela devia estar estranhando a aparição muda e diária daquela menina à porta de sua casa. Pediu explicações a nós duas. Houve uma confusão silenciosa, entrecortada de palavras pouco elucidativas. O senhora achava cada vez mais estranho o fato de não estar entendendo. Até que essa mãe boa entendeu. Voltou-se para a filha e com enorme surpresa exclamou: mas este livro nunca saiu daqui de casa e você nem quis ler!

E o pior para essa mulher não era a descoberta do que acontecia. Devia ser a descoberta horrorizada da filha que tinha. Ela nos espiava em silêncio: a potência de perversidade de sua filha desconhecida e a menina loura em pé à porta, exausta, ao vento das ruas de Recife. Foi então que, finalmente se refazendo, disse firme e calma para a filha: você vai emprestar o livro agora mesmo. E para mim: “E você fica com o livro por quanto tempo quiser” Entendem? Valia mais do que me dar o livro: “pelo tempo que eu quisesse” é tudo o que uma pessoa, grande ou pequena, pode ter a ousadia de querer.

Como contar o que se seguiu? Eu estava estonteada, e assim recebi o livro na mão. Acho que eu não disse nada. Peguei o livro. Não, não saí pulando como sempre. Saí andando bem devagar. Sei que segurava o livro grosso com as duas mãos, comprimindo-o contra o peito. Quanto tempo levei até chegar em casa, também pouco importa. Meu peito estava quente, meu coração pensativo.

Chegando em casa, não comecei a ler. Fingia que não o tinha, só para depois ter o susto de o ter. Horas depois abri-o, ali algumas linhas maravilhosas, fechei-o de novo, fui passear pela casa, adiei ainda mais indo comer pão com manteiga, fingi que não sabia onde guardara o livro, achava-o, abria-o por alguns instantes. Criava as mais falsas dificuldades para aquela coisa clandestina que era a felicidade. A felicidade sempre iria ser clandestina para mim. Parece que eu já pressentia. Como demorei! Eu vivia no ar… Havia orgulho e pudor em mim. Eu era uma rainha delicada.

Às vezes sentava-me na rede, balançando-me com o livro aberto no colo, sem tocá-lo, em êxtase puríssimo.

Não era mais uma menina com um livro: era uma mulher com o seu amante.

(LISPECTOR, Clarice. Felicidade Clandestina, 2? Ed. 1971, Ed. José Olympio, RJ, pp. 5-8)

Uma das atividades mais comuns da comunicação humana é o ato de narrar.

Desde a infância ouvimos histórias de fadas, de monstros, de bichos que falam, de anjos que aparecem, de diabinhos que assustam, de Deus que castiga ou perdoa, de nossos antepassados, de nosso presente. Ouvimos e vamos criando o nosso imaginário, o nosso mundo fantástico, que nem por isso deixa de ser real para nós. Ouvimos e vamos entrando na realidade, os nossos primeiros contatos com o mundo.

Aprendemos mais tarde a contar histórias. Falsas ou verdadeiras. Histórias que nos contaram. Histórias que presenciamos. Histórias que vivenciamos. Histórias que inventamos. Histórias…

Quem não repetiu tantas vezes a mesma história, que não passou a acreditar nela como se fosse verdadeira? O imaginário popular está repleto de histórias incríveis que até hoje nos envolvem, fazendo-nos rir, chorar, pensar, usá-las como exemplo para as mais variadas situações.

Se refletirmos, perceberemos que, em todas as histórias, há sempre cinco elementos básicos e comuns: NARRADOR, PERSONAGENS, FATO (conflito + ações), TEMPO e ESPAÇO (ambiente). Se a reflexão for mais profunda, perceberemos a presença de outros elementos mais complexos e, por isso mesmo, mais enriquecedores desse tipo de discurso. Mas isso requer outra abordagem que deverá acontecer na próxima atividade.

ATIVIDADE DE REDAÇÃO

Lendo o texto proposto, você deve ter percebido que nele predomina a narração: uma história está sendo contada. Procure refletir sobre ele e perceber o que mais lhe chamou a atenção: a história em si? o envolvimento das personagens? o tipo de conflito? a marcação temporal? a delimitação do espaço? a postura, do narrador? o desfecho? Tendo feito essas reflexões, procure desenvolver, em prosa, uma das propostas abaixo:

PRIMEIRA: Reescreva a história do ponto de vista da personagem “menina gorda”.

SEGUNDA: Reescreva a história do ponto cie vista da personagem “mãe da menina gorda”.

TERCEIRA: Crie uma outra história que possa também ser chamada de FELICIDADE CLANDESTINA.

PROGRESSÃO —–> MUDANÇA —–> CONQUISTA DO INTERESSE

Toda narrativa caracteriza-se por um encadeamento de ações que progridem de maneira linear ou alinear, buscando um desfecho com uma solução que se harmonize com o próprio desenvolvimento do conteúdo narrado.

A progressão das ações, englobando todos os percalços vividos pelas personagens ao criarem o conflito, determina o caráter dinâmico da narração, o que pode ser comprovado pelos verbos de ação.

É necessário ter consciência de que a progressão das ações deve acarretar uma mudança substancial do universo interior da personagem. Não há basicamente narração, se não houver transformações de conteúdo que a personagem assimila, expressa e até assume. O tempo, o espaço, o foco narrativo, as ações, tudo pode repetir-se ou permanecer inalterado, mas a personagem, ao final do texto apresentar-se-á transformada. Narra-se principalmente para demonstrar essa transformação.

A progressão de ações, responsável pela mutação da personagem, uma vez depurada pelo crivo da seleção, deve criar uma teia fascinante em que o leitor se enrede. Aí reside a conquista do interesse. Possuindo unidade — subordinação e correlação de fatos secundários ou derivantes a um fato central —, a sequência narrativa, traduzida em linguagem expressiva, conquista e prende o interesse do leitor, tornando-o cúmplice da matéria narrada.

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