A raiva como erro no relacionamento

A raiva como erro no relacionamento
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Apesar de uma emoção que passa logo, a raiva deve ser encarada seriamente pelas pessoas, para, com isso, evitarem maiores problemas.

No século IV a.C, Aristóteles, filósofo grego, já fazia algumas observações sobre a raiva, caracterizando-a como uma emoção dirigida a determinados indivíduos. Ao mesmo tempo, o ódio significava para ele manifestação relacionada a grupos sociais, tendo como tônica a destruição. De certa forma, a psicologia moderna confirma isso, quando identifica a raiva como emoção transitória e o ódio como sentimento com impulsos agressivos, organizados e dirigidos tanto para uma só pessoa como para grupos.

A ORIGEM DA RAIVA

250x250Apesar de algumas controvérsias, experiências feitas mostram que a raiva se origina na base do cérebro, de onde são enviados impulsos nervosos, responsáveis pelas alterações emocionais, desde que o homem seja agredido moral ou fisicamente.

Acompanha a raiva uma série de mudanças físicas, relativamente fáceis de serem observadas. Assim como nos animais, as alterações fisiológicas decorrentes da raiva são iguais em todas as pessoas. O que pode variar é a maneira que cada um tem para exteriorizar seus sentimentos. Os gatos, por exemplo, arreganham os dentes, emitem sons semelhantes a guinchos e ficam com o pelo completamente eriçado. Essas alterações, em verdade, nada mais são do que uma necessidade fisiológica de “preparar o animal para a luta, assim como as reações que se seguem ao medo e levam à fuga.

Internamente, tanto em homens como animais, a adrenalina e outras substâncias químicas, segregadas no sangue, provocam o aumento da pulsação e pressão sanguínea; aceleram a respiração, deixam os músculos mais tensos e contraídos, paralisam a digestão e os movimentos intestinais e reduzem consideravelmente a percepção sensorial, o que explica a insensibilidade de homens e animais diante de ferimentos recebidos durante brigas ou lutas. Todo esse quadro, entretanto, não teria maiores consequências se não prejudicasse física e psiquicamente a pessoa irada, principalmente quando ela nega esse sentimento, deixando de exteriorizá-lo, camuflando-o sob forma de resignação ou indiferença.

PROBLEMAS DA AUTO-CENSURA

Pessoas que desde cedo aprendem a não dar nenhuma demonstração de agressividade escondendo seus sentimentos, sejam eles de afeto ou de hostilidade, são exemplos disso. Insegurança, carência de afeto e outras frustrações são problemas que vêm desde a infância e inibem a capacidade de responder às emoções, que pouco a pouco vão se acumulando no íntimo. Desabituadas a lidar com a raiva que sentem, por exemplo, julgam-se culpadas quando uma pessoa desperta sua hostilidade. Pensam o tempo todo “como sou mau, não gosto de fulano, antipatizo com sicrano, ai de mim se eles soubessem disso”, etc. A raiva contida é tanta, que têm medo de colocá-la à prova e, mais cedo ou mais tarde, por um motivo às vezes insignificante, acabam explodindo, com consequências imprevisíveis. São essas pessoas que raramente se exaltam, mas quando isso acontece “perdem a cabeça”, gritam, xingam, quebram coisas e agridem, confirmando com isso a ideia errónea de que a raiva realmente é prejudicial.

Em verdade, a pessoa que não manifesta sua raiva costuma passar por frequentes depressões. Guarda a agressividade como algo perigoso, que não pode ser exteriorizado. Vive constantemente com medo de que alguém a desmascare e descubra esse aspecto da sua personalidade, sendo, em consequência, abandonada ou rejeitada pelas pessoas que ama. Cada vez que sente raiva, não só aumenta a agressividade como aumenta também seu sentimento de culpa, ficando deprimida, e passando a aceitar como merecido castigo o fato de achar que realmente é uma pessoa agressiva. E no extremo dessa sua depressão está a tristeza e desinteresse pelas coisas.

Este, entretanto, não é um caso isolado. Deve-se lembrar que ninguém está livre de sentir raiva. O convívio diário de duas pessoas proporciona às vezes situações que provocam o aparecimento da raiva. Casais que afirmam que em “dez anos de casamento nunca tiveram uma discussão” talvez sejam modelos de equilíbrio emocional, mas pode ser também que estejam reprimindo suas emoções, principalmente aquelas carregadas de agressividade. A raiva assim contida pode destilar diariamente, e por vários anos, em manifestações sutis de hostilidade, amargura, ironia, que invariavelmente prejudicam o bom entendimento dos dois.

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COMO CONTROLAR

Situações como essas podem ser facilmente evitadas desde que se saiba contornar, controlar e dar vazão adequada aos sentimentos. Apesar do esporte ser uma ótima válvula de escape para tensões e a agressividade, em geral não é possível abandonar o trabalho ou sair de casa para praticá-lo. O primeiro passo para evitar “explosões” desnecessárias, portanto, é admitir a própria raiva.

Reconhecer sua intensidade também faz parte desse bom começo. Nada de engoli-la passivamente em meio a lágrimas de humilhação ou ignorá-la com um sorriso superior. Deve-se, ao mesmo tempo, descobrir o tipo de situação que a originou e as maneiras de canalizá-la e livrar-se dela. Este exemplo ilustra muito bem a situação: uma moça, desesperada porque o namorado a abandonou, pensa em morrer. Esta ideia equivale a uma punição, porque está assumindo a culpa pela frustração causada pelo rapaz. Evidentemente, matar o namorado também não é uma boa saída. O que ela deve fazer é livrar-se dele simbolicamente, reconhecer sua raiva, admitir sua frustração, aceitar os próprios erros e falhas, partindo daí para uma nova situação com melhores condições psicológicas e muito mais amadurecida emocionalmente.

Na realidade, quem age “cego de raiva”, além de prejudicar a si mesmo, geralmente corre o risco de ser injusto com outras pessoas, de reagir exageradamente diante de situações simples. É o caso de pessoas que não aceitam o mínimo erro em outra, pelo fato de estarem emocional mente desajustadas. Por outro lado, é preciso lembrar que fazer inimigos, perder empregos, ter fama de antipático, insuportável e antissocial não são coisas muito agradáveis.

Assim sendo, não é mau que uma discussão doméstica, por exemplo, termine com o homem serrando e martelando vigorosamente um pedaço de madeira e a mulher, polindo, não menos furiosa, as panelas. Esta é uma atitude inteligente, já que os dois se zangaram a ponto de não terem meios de se entenderem. Por um lado, estão dando tempo para a raiva se esgotar. Por outro lado, cumprem um esforço físico para o qual.o corpo se preparou. Superada a crise, será bem mais fácil chegar a um acordo razoável. A raiva terá, com isso, agido positivamente, como estímulo na procura de uma solução para o desentendimento. Enfim, a maneira de enfrentar a raiva, transformando-a em uma ação construtiva — que não magoe ninguém, além do indispensável —, depende de cada situação, em particular, e da dose de bom senso das pessoas. Além disso, o diálogo franco, aberto e ponderado evita o acúmulo de raiva contida — mesmo vazões violentas —, levando as pessoas a viverem em boa harmonia.

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