Quanta coisa inútil aprendemos na escola?

Quanta coisa inútil aprendemos na escola?
Rate this post

Hoje me peguei pensando nisso enquanto discutia com alguns alunos sobre a importância de se conhecer a estrutura da Língua Portuguesa para construir bons textos. Durante a conversa, lembrei e narrei a eles algumas experiências de quando eu ainda lecionava para o EJA [Educação de Jovens e Adultos].

Normalmente quem leciona para o EJA sabe que o contexto vivido ali é bem diferente do que encontramos numa sala de Ensino Médio regular. Isso porque os alunos que estão ali são, em sua grande maioria, pessoas que voltaram a estudar depois de muito tempo distante da escola. A isso soma-se o fato de que eles trabalharam o dia todo e estão ali a escola por pura necessidade. Muitas vezes via meus alunos dormindo sentados e não tinha coragem de sequer chamar a atenção deles. Pense: o cara bateu massa o dia todo na obra em que trabalha e eu vou brigar porque ele cochilou enquanto eu falava de orações subordinadas substantivas completivas nominais? Até eu dormiria!

Por este motivo sempre fiz um currículo diferenciado, mas sem desprezar os conteúdos necessários para que eles estivessem habilitados a fazer um concurso se assim desejassem.

Mas voltando ao assunto que dá título ao artigo, quando em minhas aulas abordava alguma questão estrutural da Língua Portuguesa, sempre tentava contextualizar para eles de forma que vissem sentido em aprender. Um exemplo que sempre dou de coisa inútil de se aprender, mas que faz sentido quando relacionada ao contexto deles é aprender o grau comparativo dos adjetivos. Eu falava para eles algo parecido com isso:

Imagine que você, nas horas vagas arruma um emprego de corretor numa imobiliária do bairro e aí está sua chance de tirar um dinheiro extra ou mesmo de mudar para uma profissão que exija menos do corpo. Ao tentar vender um apartamento, você pode levar em consideração em seu discurso o que aprendeu nas aulas sobre adjetivo. Querem ver? Imagine que o seu cliente está em dúvida entre o apartamento que você está vendendo e um outro da concorrência. Você poderia usar uma oração no grau comparativo de superioridade: “Nosso empreendimento é muito mais vantajoso que o da concorrência. Nossos apartamentos são mais arejados que os desse outro prédio, nossas vagas são mais espaçosas que as deles’. E caso precise, poderia denegrir a imagem da concorrência usando, nesse caso, o grau comparativo de inferioridade: O aparamento deles é menos arejado que o nosso’.

Ou seja, a Língua Portuguesa e o estudo das estruturas que, a princípio, parecem servir apenas para as provas e vestibulares faz parte sim do nosso dia a dia. O que fica evidente pra mim é que, ainda que seja na escola pública, não é necessário muito esforço para tornar significativo o estudo do Português e fazer com que os alunos não precisem recorrer a ebooks que ensinam a escrever corretamente.

2 Comments

  • Reply REINALDO TAVARES DA SILVA setembro 26, 2013 at 2:38 am

    Por favor, pensem: Somos nós professores que construímos o curriculo? ou ele ja vem pronto? apenas repassamos? Quanto às estratégias de ensino cada um com seu cada um. Inúteis são essas ideias de achar inútil o que não é.

    • Reply Rogério setembro 26, 2013 at 2:46 am

      Reinaldo, talvez você não tenha entendido o que eu disse no texto. Não seja um leitor de títulos apenas. O currículo e muitas outras coisas vêm, na maioria das vezes, prontos para serem seguidos. O que será feito com isso é o que, na minha opinião, diferencia o bom professor do excelente professor. Repetir o que está nos livros da mesma forma ao longo de décadas é ridículo. Se o ensino não se torna significativo para o aluno, dificilmente ele prestará atenção e, muito menos, respeitará o professor. Enfim, leia de novo. Tenho certeza de que entenderá.

    Leave a Reply