História das ervas medicinais no Brasil

História das ervas medicinais no Brasil
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No momento em que o primeiro ser humano surgiu no planeta, as plantas já existiam havia mais de 400 milhões de anos. Da forma como os conhecemos hoje, os primeiros vegetais apareceram durante a Era Paleozóica, no período Siluriano. Eles evoluíram a partir dos organismos eucariontes fotossintetizantes, uma espécie de algas primitivas. O homem moderno, o Homo sapiens, só ganhou forma e vida cerca de 50 mil anos atrás. A partir de então começou a fazer uso das plantas. Há  registros antigos, como desenhos em cavernas, escritos e símbolos, que revelam uma ligação muito íntima do homem com a natureza, principalmente com as plantas. As plantas também sempre tiveram um papel muito importante na cultura, religião, medicina, estética e alimentação dos povos. Em relatos e documentos antigos, elas eram designadas como “dádivas dos criadores” e vistas com grande respeito e admiração por muitas civilizações.

Nos rituais da Antigüidade, os chamados “Iniciados no Mistério” eram preparados, durante longos períodos, com a ingestão de ervas, além de banhos e inalações por meio de incensos feitos de plantas consideradas mágicas. Acreditava-se que, usando essas técnicas, o corpo, a mente e o espírito dos magos e sacerdotes estariam purificados para a comunicação direta com os mundos superiores.

Com o passar do tempo, o estudo da botânica evoluiu, pois o homem foi desenvolvendo um senso aguçado e, aos poucos, classificando e catalogando as espécies em função de seu uso para os mais diversos fins. Essa classificação se tornou possível, a princípio, pela observação direta da forma das plantas: o formato das folhas, dos caules ou troncos e das raízes.

As espécies tidas hoje como medicinais ou tóxicas começaram a serem classificadas pelo uso prático dos antigos habitantes da Terra. Muitas vezes, uma planta medicinal era descoberta simplesmente por apresentar uma morfologia semelhante a alguma parte do corpo humano e, assim, associada a ele no processo de cura.

As ervas aromáticas, em especial, devido aos seus poderosos óleos essenciais, também foram empregadas desde o início dos tempos para a elaboração de cosméticos naturais, perfumes, dentifrícios e sabões. A mirra, o benjoim e a lavanda, por exemplo, já eram usados havia milhares de anos em perfumes e aromatizantes raros. A sálvia era utilizada para branquear os dentes: bastava criar o hábito de mascar suas folhas.

Cada civilização, em cada parte do mundo, foi compilando suas diferentes experiências de forma empírica, deixando acumular até os nossos dias um vasto e inestimável conhecimento sobre as ervas, em grande parte comprovado pela ciência moderna.

As plantas e os primórdios da colonização.

O Brasil tem uma das mais ricas biodiversidades do planeta, com milhares de espécies em sua flora e fauna. Possivelmente, a utilização das plantas – não só como alimento, mas também como fonte terapêutica – começou desde que os primeiros habitantes chegaram ao Brasil, há cerca de 12 mil anos, dando origem aos paleoíndios amazônicos, dos quais derivaram as principais tribos indígenas do país.
Pouco, no entanto, se conhece sobre esse período. As primeiras informações sobre os hábitos dos indígenas só vieram à luz com o início da colonização portuguesa, a começar pelas observações feitas na Ilha de Santa Cruz pelo escrivão Pero Vaz de Caminha, da esquadra de Pedro Álvares Cabral, em sua famosa Carta a El Rei D. Manuel.

Um pouco mais tarde, entre 1560 e 1580, o padre José de Anchieta detalhou melhor as plantas comestíveis e medicinais do Brasil em suas cartas ao Superior Geral da Companhia de Jesus. Descreveu em detalhes alimentos como o feijão, o trigo, a cevada, o milho, o grão-de-bico, a lentilha, o cará, o palmito e a mandioca, que era o principal alimento dos índios. Anchieta citou também verduras como a taioba-roxa, a mostarda, a alface, a couve, falou das frutas nativas como a banana, o marmelo, a uva, o citrus e o melão, e mostrou a importância que os índios davam às pinhas das araucárias.

Das plantas medicinais, especificamente, Anchieta falou muito em uma “erva boa”, a hortelã-pimenta, que era utilizada pelos índios contra indigestões, para aliviar nevralgias e para o reumatismo e as doenças nervosas. Exaltou também as qualidades do capim-rei, do ruibarbo-do-brejo, da ipecacuanha-preta, que servia como purgativo, do bálsamo-da-copaíba, usado para curar feridas, e da cabriúva-vermelha.

Outro fato que chamou a atenção do missionário foi a utilização dos timbós pelos índios, especialmente da espécie Erythrina speciosa, Andr. O timbó, de acordo com o Aurélio, é uma “designação genérica para leguminosas e sapindáceas que induzem efeitos narcóticos nos peixes, e por isso são usadas para pescar. Maceradas, são lançadas na água, e logo os peixes começam a boiar, podendo facilmente ser apanhados à mão. Deixados na água, os peixes se recuperam, podendo ser comidos sem inconveniente em outra ocasião”.

Quase tudo que se sabe da flora brasileira foi descoberto por cientistas estrangeiros, especialmente os naturalistas, que realizaram grandes expedições científicas ao Brasil, desde o descobrimento pelos portugueses até o final do século XIX. Essas expedições tinham o intuito de conhecer e explorar as riquezas naturais do país, conhecer a geologiae a geografia do Novo Mundo, bem como determinar longitudes e latitudes para a elaboração de mapas.

Essas aventuras empreendidas pelos naturalistas, inclusive alguns brasileiros, contribuíram sobremaneira para a descrição de milhares de espécies de plantas e animais do Brasil. Conheça algumas dessas expedições:

1501-1570 – Américo Vespúcio (italiano, 1454-1512), Thevet (francês) e Jean de Léry(francês, 1534-1611): Foram os primeiros a explorar a fauna e a flora do país, descrevendo, de acordo com uma citação do pesquisador Newton Freire-Maia, “plantas e animais, os esquisitos frutos dos trópicos e as aves vistosas de nossas florestas”. Léry, pastor calvinista e escritor, publicou o livro Narrativa de uma viagem feita à terra do Brasil também dita América (1578).

1638-1644 – Jorge Marcgrave (alemão, 1610-1644) e Guilherme Piso (holandês): Vieram a convite de Maurício de Nassau, em 1638, para estudar a fauna e a flora brasileiras. Marcgrave construiu o primeiro observatório astronômico da América (1639). Publicaram na Europa o livro História natural do Brasil e descreveram de forma detalhada os hábitos dos brasileiros em relação ao uso das plantas medicinais, especialmente os chás e ungüentos receitados pelos curandeiros negros, mulatos e caboclos — os quais, mais do que os pajés indígenas, ensinaram aos europeus suas receitas naturais.

1783-1792 – Alexandre Rodrigues Ferreira (brasileiro, 1756-1815): Ficou conhecido pelo cognome de “Humboldt brasileiro”. Realizou extensas investigações em todos os ramos das ciências naturais, enviando um grande número de manuscritos e espécimes botânicos, zoológicos e mineralógicos para o Real Museu da Ajuda, em Portugal. Boa parte de sua obra foi pilhada pelos franceses em 1808, durante a invasão de Portugal pelas tropas de Junot, marechal do exército de Napoleão.

1800 – Friedrich Heinrich Alexander, o Barão von Humboldt (alemão, 1769-1859): Na companhia de outro naturalista, o francês Aimé Bonpland, Humboldt viajou entre 1799 e 1804 por vários países latinos (Venezuela, Cuba, Brasil, Colômbia, Equador, Peru e México). Na sua jornada coletou material suficiente para escrever 30 volumes da monumental obra Voyage aux régions é quinoxiales du nouveau continent, fait en 1799, 1800, 1801, 1802, 1803 et 1804. Nessa obra, descreve várias espécies de plantas brasileiras.

1816-1821 – Hyppolyte Taunay (francês): Preparador do barão e naturalista Georges Cuvier, veio ao país em 1816 com a finalidade de coletar espécimes vegetais para o Jardin des Plantes, de Paris. Em parceria com o historiador francês Jean Ferdinand  Denis (1798-1890), publicou um livro sobre o Brasil, em 1822.

1816-1822 – Augustin François César Provençal de Saint-Hilaire (francês, 1779-1853):
Botânico, ficou no Brasil entre 1816 e 1822, percorrendo os estados do Rio de Janeiro, Espírito Santo, Minas Gerais, Goiás, São Paulo, Santa Catarina e Rio Grande do Sul. Conheceu as nascentes do Jequitinhonha e do São Francisco até Rio Claro. Viajou a cavalo ou em lombo de burro, em caminhos muitas vezes abertos com facão por seus acompanhantes escravos. Nos sertões, acabou servindo como médico para diversas comunidades, pois conheceu inúmeras plantas medicinais pelo país. Coletou cerca de 7 mil espécies vegetais e publicou mais tarde os livros Plantas usuais do povo brasileiro (1824), História das plantas mais notáveis do Brasil e do Paraguai (1824) e Flora do Brasil Meridional (1825), obras até hoje consultadas na biblioteca de botânica da Universidade de Paris. Leia um texto de Saint-Hilaire.

1817-1835 – Johann-Baptist von Spix (zoólogo alemão, 1781 — 1827) e Karl Friedrich von Phillip Martius (botânico alemão, 1794-1868): Chegaram ao país em 1817, junto com outro naturalista, o austríaco Johann von Natterer (1787-1843). Faziam parte de uma comissão de naturalistas que acompanhou a duquesa Leopoldina d’Áustria, que se tornou a primeira imperatriz do Brasil ao se casar com D. Pedro I. Estudaram profundamente a fauna e a flora brasileira, descobrindo espécies novas. Spix publicou os livros O desenvolvimento do Brasil desde o descobrimento até o nosso tempo (1821) e Viagempelo Brasil (1823-1831). Martius publicou quase dez livros sobre o Brasil. De botânica, especificamente, foram dois: Gêneros e espécies de palmeiras (1823-1832) e a monumental Flora brasiliense (1840-1868). Spix e Martius voltaram para a Europa em 1820, enquanto Natterer ficou até 1835.

1822-1829 – Georg Heinrich von Langsdorff (alemão, 1774-1852): Médico e naturalista, passou pela primeira vez pelo litoral brasileiro em 1803, em viagem de circunavegação. Voltou ao Rio de Janeiro em 1813, como cônsul da Rússia. Em 1824, iniciou uma série de viagens pelo Brasil patrocinadas pelo czar Alexandre I, para as quais contratou o artista Johann Moritz Rugendas (1802-1859), o biólogo Georg Freyriss (1789-1825) e o botânico Ludwig Riedel (1790-1861). Entre 1824 e 1825, esteve na província de Minas Gerais, onde Rugendas abandonou a expedição. Entre 1825 e 1829, acompanhado pelos artistas franceses Aimé-Adrien Taunay (1803-1828) e Antoine Hercule Florence (1804-1879), que substituíram Rugendas, além do mesmo grupo de cientistas, o barão de Langsdorff empreendeu uma viagem ao Amazonas. A viagem terminou tragicamente, com a morte do jovem Taunay, afogado no Rio Guaporé, e a loucura de Langsdorff, aparentemente provocada por febres tropicais. Além dos desenhos e manuscritos, o acervo remetido para a Rússia durante a viagem incluía cerca de 100 mil amostras de espécies da flora tropical.

1825-1830 e 1835-1880 – Peter Wilhelm Lund (dinamarquês, 1801-1880): Estudou a fauna e a flora, mas suas pesquisas eram predominantemente de ordem paleontológica. Decidiu morar no Brasil, em Lagoa Santa (MG), por causa do clima, pois o frio das margens do Báltico prejudicava sua saúde.

1832-1836 –Charles Darwin (inglês, 1809-1882): Viajando ao redor do mundo a bordo do
Beagle, entre 1831 e 1836, ficou pouco mais de quatro meses no Brasil. Na ida da viagem, em 1832, passou algumas horas do dia 20 de fevereiro na Ilha Fernão de Noronha (atual Fernando de Noronha), 18 dias em Salvador (29 de fevereiro a 18 de março) e três meses no Rio de Janeiro (4 de abril a 5 de julho). Na volta, percorreu novamente a costa brasileira, passando por Salvador (1°a 5 de agosto) e Recife (12 a 19 de agosto). Apesar de não poupar críticas à miséria e à condição dos escravos no Brasil, Darwin fez um relato emocionado sobre as florestas da América. Leia um trecho do relato de Darwin.

1848-1859 – Alfred Russel Wallace (inglês, 1823-1913) e Henry Walter Bates (inglês, 1825-1892): Co-descobridores da Teoria da Evolução, de Charles Darwin, os naturalistas chegaram juntos ao Pará em 1848 e tomaram rumos diferentes. Bates seguiu pelos rios Negro e Solimões, onde estudou a fauna e um pouco da flora, morando durante oito anos no vilarejo de Tefé. Retornou para a Inglaterra em 1859, levando uma coleção de 14.712 espécies de animais e vegetais, muitas delas novas para a ciência. Publicou o livro The naturalist on the river Amazonas (1863), traduzido para o português em 1944, no qual descreve muitas ervas medicinais usadas pelas populações ribeirinhas do Solimões. Wallace ficou no país somente até 1852, viajando por outros rios da Amazônia, mas perdeu sua valiosa coleção na saída do país, depois que seu brigue (embarcação de dois mastros), chamado Helen, sofreu um incêndio e naufragou próximo à cidade de Belém.

1852-1897 – Fritz Müller (alemão, 1821-1897): Emigrou para o Brasil, indo morar em Blumenau, onde se dedicou à agricultura e à descrição de inúmeras espécies de plantas, peixes e crustáceos. Manteve correspondência assídua com Haeckel e Darwin, que o considerava “o príncipe dos observadores”. É criador de um conceito importantíssimo para a genética e a teoria da evolução, o da ontogenia: “A ontogenia, ou desenvolvimento do indivíduo, é a recapitulação breve e rápida da filogenia, ou desenvolvimento genealógico da espécie à qual ele pertence”.

1863-1866 – Eugênio Warming (dinamarquês): Morou por três anos em Lagoa Santa (MG), onde estudou muito a vegetação do cerrado. De volta à Europa, publicou os livros Lagoa Santa: Contribuição para a geografia fitobiológica (1892), traduzido para o português em 1908 por Alberto Loefgren, e As comunidades vegetais (1895), primeiro livro de ecologia do mundo.

1865-1866 – Jean-Louis Rodolphe Agassiz (suíco, 1807-1873): Também foi discípulo de Cuvier em Paris, depois fixou residência nos Estados Unidos. Veio ao Brasil na ThayerExpedition, financiada pelo milionário americano Nathaniel Thayer. Estudou principalmente a fauna ictiológica da Amazônia, encontrando 1.800 novas espécies de peixes — mais do que as conhecidas no Atlântico, o dobro das do Mediterrâneo e dez vezes mais do que as espécies que Lineu conhecia em todo o mundo. Publicou diversos livros sobre o Brasil, entre eles História física do vale do Amazonas, Geografia do Brasil e O Rio Amazonas (1867) e ainda Uma viagem pelo Brasil (1868).

1884-1907 – Emile Auguste Goeldi (suíço, 1859-1917): Chegou ao Brasil para trabalhar no Museu Nacional do Rio de Janeiro, a convite do governo imperial. Com a queda da monarquia, transferiu-se para Belém, onde fundou o Museu Goeldi (1900), de história natural, rebatizado em 1931 por Museu Paraense Emílio Goeldi. Viajou pela região estudando a fauna amazônica e realizando expedições arqueológicas. Colaborou também nos trabalhos relativos à questão de limites do Brasil com a Guiana Francesa. Voltou para a Suíça em 1907, onde faleceu dez anos mais tarde. Entre suas obras estão Aspectos da natureza do Brasil, Maravilhas da natureza da Ilha de Marajó e Álbum das aves amazônicas (1900-1906).

1 Comment

  • Reply silmara fabisiak outubro 23, 2012 at 8:41 pm

    muuuuiiito interessante

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