Como ter um relacionamento de confiança com os filhos

Educação
fevereiro 9, 2017




A fantasia faz parte da infância e não há razão para impedi-la, mas mentir a respeito de fatos importantes, prometer o que não se vai cumprir, tira a confiança fundamental no relacionamento entre pais e filhos.

Em princípio, a criança não tem motivos para duvidar dos pais: eles são, praticamente, seus únicos pontos de referência e ela não é capaz de duvidar do que lhe ensinam. Mas, quando chega a adolescência, mesmo que tenha sido uma criança sem problemas, o jovem colocará em xeque tudo o que os pais disserem.

As crises entre pais e filhos, o descrédito e a falta de confiança são consequência de conflitos que vêm de mais longe, desde os primeiros anos de vida dos filhos: “Se você ficar bonzinho, vai ganhar bala” é uma promessa garantida para conseguir qualquer coisa de uma criança. O menino “fica bonzinho”, mas, na hora de ganhar a bala, arruma-se uma desculpa: “Está chovendo, não dá para comprar bala”. Para a criança, não importa se o motivo da recusa é justo — mas que ela cumpriu sua parte no trato, e o adulto, não. Então, sente^se traída, enganada.

A mesma coisa acontece com ameaças não cumpridas: “Se não parar com isso, você vai ver” pode ser um meio eficiente de fazer a criança sossegar. Mas, como ela não entende que é uma simples força de expressão, espera “ver” alguma coisa — e nada acontece.

Além dessas mentirinhas, há outras formas de trair a confiança de uma criança. Por exemplo: Tatiana sabe que sua mãe gosta dela, mas já pediu que não a chamasse pelo apelido diante de estranhos. E, quando isso acontece, ela duvida: “Se mamãe gostasse mesmo de mim, não faria isso”. Portanto, criar confiança é também respeitar a criança, mesmo que para o adulto uma promessa não cumprida possa parecer sem importância.

E, se um assunto é tabu para os pais, eles mentem esperando que, quando chegar a hora, o filho “aprenderá sozinho”. Estão nesse caso dois temas que costumam ser mascarados,, escondidos da criança: sexo e morte. Pode ser que a criança se satisfaça durante algum tempo com a explicação de que a cegonha traz os bebés, mas depois perguntará de onde vem a cegonha, a que horas ela aparece — e as mentiras irão se somando. Quando ela descobrir a verdade, mesmo que os pais justifiquem a mentira como bem intencionada, a criança ainda se sentirá enganada.

O assunto morte não é simples, mas não adianta tratá-lo com indiferença ou frieza estudada, porque a qualquer momento a criança poderá encará-lo: se seu passarinho morrer, é melhor contar do que dizer que ele fugiu da gaiola, ou correr para substituí-lo por outro. Assim ela irá tendo uma ideia da morte como coisa natural. É claro que, no caso da perda de um parente ou amigo, não vale a pena fazê-la presenciar cenas de desespero ou tristeza, que podem impressioná-la. Mas também não se deve dizer que “titia vai passar muito tempo viajando”.

De qualquer forma, quando a criança está interessada num assunto, acaba se informando através da televisão, de revistas, livros ou colegas. E, sempre que perceber que não lhe disseram a verdade, aumentará sua desconfiança. Se a criança faz perguntas sobre determinado assunto é sinal de que ele está ao seu alcance e não há motivos para preocupar-se. Também não é necessário adiantar sua curiosidade com respostas complicadas e detalhes desnecessários.

Mentir ou esconder problemas familiares, como a separação dos pais, ou uma dificuldade financeira, é maneira pouco eficiente de poupar a criança, mesmo porque ela percebe perfeitamente quando alguma coisa não vai bem.

Se ela sente que os pais vão se separar, por exemplo, é capaz de achar-se obrigada a tomar secretamente o partido de um dos dois, sentindo-se culpada em relação ao que foi “desprezado”.
Convém que ela não presencie cenas violentas, mas que ps problemas cheguem a ela explicados da maneira mais simples e clara possível. Por exemplo: se o papai perdeu o emprego ou seus negócios vão mal e as despesas precisam ser reduzidas, esconder a situação dá ao fato dimensões de algo vergonhoso, que não pode ser revelado. Tentar manter as aparências como se nada estivesse acontecendo é deixar o filho de lado e negar que ele participe de algo que diz respeito a todos os membros da família. Assim, desde que o fato não escape à sua compreensão, enfrentar junto com os pais uma situação difícil fará com que ele se sinta responsável, como “gente grande”.

PAIS: MODELOS DE VIRTUDE?

A criança que vive num clima de confiança preferirá esclarecer suas dúvidas em casa, onde qualquer diálogo é permitido. E se os pais não souberem responder a alguma pergunta, não há mal nenhum em confessar isso. Pode-se dizer: “Não sei bem, vou descobrir para você”, ou “também   gostaria  de  saber;  vou comprar um livro para lermos juntos”. Essa atitude só aumenta o companheirismo sadio entre pais e filhos.

A atitude fechada, rígida, de pais que se comportam como modelos de virtude cria uma distância às vezes intransponível, onde eles são o peso e a medida de todas coisas.

Essa posição é também uma faca de dois gumes porque é difícil não transgredir regras rígidas. Os pais que fumam e proíbem os filhos de fumar, sem maiores explicações, estão se contradizendo: o mal que o fumo faz deveria ser explicado aos filhos com suas consequências negativas no período de formação do corpo, mas que poderão fumar ou não, quando forem maiores. Senão, o jovem estará assistindo a uma demonstração de “faça o que eu digo, mas não o que eu faço”.

O respeito e a confiança não se impõem, conquistam-se. E essa conquista é feita aos poucos, sem medo de mostrar-se aos filhos como se é, com falhas, defeitos e fracassos de um ser humano — mesmo porque, a realidade aparece. Pais que se escondem atrás de máscaras de perfeição repetem os mesmos erros da educação que receberam.

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