Como disciplinar crianças

Educação
agosto 18, 2015

Trabalhando em sala de aula durante mais de uma década, tenho contato diariamente com crianças que são problemáticas em alguns aspectos como o comportamento. Na busca de estratégias para alcançar e “ganhar” o coração delas, invariavelmente descobrimos que na raiz do problema está a falta de limites dos próprios pais. A compreensão e o amor são fundamentais na educação de uma criança. Só assim, ela pode se tornar um adulto emocionalmente equilibrado.

Nos últimos anos, os conceitos sobre educação de crianças passaram por uma série de modificações. Se antes havia uma rígida disciplina baseada em princípios religiosos e costumes sociais, atualmente as atitudes dos pais e professores em relação aos filhos e alunos são menos rigorosas, mais liberais. Afinal, descobriu-se, depois de muito tempo, que a educação de uma criança não pode ter como base apenas a punição. Em verdade, na maioria das vezes, a punição revela o despreparo ou descontrole dos orientadores e, portanto, não pode produzir resultado na formação das crianças quando usada como única forma de disciplina.

EQUILÍBRIO DA EDUCAÇÃO

Assim sendo, pais e professores devem ser compreensivos e dar mais atenção ao comportamento e desenvolvimento emocional da criança. Antes de mais nada, ela precisa ser tratada como gente (na expressão da palavra) e não como um simples brinquedo vivo que se tem na escola ou dentro de casa, cuja função é obedecer prontamente ao que lhe for ordenado e que se presta para pequenos serviços.
A nova maneira de educar e disciplinar, entretanto, propõe que haja um equilíbrio (balanceamento) entre o encorajamento para livres decisões e o aprendizado das limitações que a criança precisa aceitar para ser bem recebida pelo grupo de adultos e de crianças.

PRINCÍPIOS DA DISCIPLINA

Para que se tome qualquer providência em relação à educação de uma criança, deve-se primeiro compreender os três sentidos comumente atribuídos à disciplina:

1)   Punição   —   Visa   apenas   a impedir a repetição de certos comportamentos pela aplicação de castigos e reprimendas. São casos típicos   os   pais   e   professores   emocionalmente desajustados que descarregam, pela punição, os problemas e as frustrações que adquiriram anteriormente.

2)  Imposição — Visa ao comportamento ordenado da criança, mediante o controle constante de todos os   seus   atos.   Impõe   obediência pronta às ordens dos adultos. Tal critério de disciplina, aplicado sem nenhum cuidado, bloqueia o comportamento infantil. Por isso, deve-se lembrar que a imposição só pode ser usada com limitação. É claro que uma criança precisa ser controlada em muitos de seus atos, mas é quase certo também  que ela não consiga   se   orientar   quando   está impossibilitada de tomar qualquer iniciativa. À primeira vista, parece muito mais fácil o adulto se impor à criança, em vez de ajudá-la a auto-dominar-se.    Mas    isso,    algumas. vezes, é uma defesa do professor ou dos pais contra seu próprio despreparo   e   insegurança   para   educar crianças.  Não  raro,  a única referência dos educadores é a própria maneira   como   foram   educados. Assim sendo, agem em relação às crianças no sentido de “fazer como minha mãe fazia” ou — quando a experiência não foi muito boa — agem exatamente ao contrário dela. Infelizmente, isto vai contra a formação progressiva de um sentido de responsabilidade por parte da criança.

3)   Fortalecimento   do   autocontrole — Este é o verdadeiro sentido da disciplina escolar. Seu objetivo é corrigir e valorizar a autodisciplina, capacitando a criança a desenvolver sua própria orientação e controle. Assim, se o professor ou os pais estiverem educando baseados nesse princípio, a criança terá chances de um desenvolvimento emocional e intelectual bastante sadio. Por exemplo, uma criança que tem dificuldades em se concentrar na aula, ou que é muito esperta e está o tempo todo chamando a atenção dos colegas e professor com “gracinhas” e piadas, deve ser orientada para os objetivos do grupo. Em vez de ridicularizada pelo professor ou mandada fora da classe, o melhor seria tentar dar mais atenção para as coisas certas e boas que a criança faz, elogiando-a frente aos colegas. E, por outro lado, evitar de dar atenção quando vier o comportamento indesejado. É preciso também que o professor explique à classe que esse comportamento é indevido e que os risos prejudicam aquela criança. Entretanto, há casos diferentes deste: pode ser, por exemplo, uma criança mais inteligente que o resto do grupo ou então uma que sofra de falta de atenção e carinho. A repressão ou punição (reforço negativo) não resolve o problema. O caso requer um trabalho paciente de fortalecimento da autoconfiança, que são conseguidos muito mais facilmente pela exaltação das qualidades positivas (reforço positivo).

AS MELHORES ATITUDES

Além de estar consciente de todos esses conceitos e da importância da estimulação positiva na educação, o orientador deve servir também de verdadeiro exemplo de coerência, dignidade e amizade. Eis algumas das atitudes que podem ajudá-lo:

1) Lembrar que o controle imposto é necessário até certo ponto e apenas em algumas fases da vida. Crianças em idade pré-escolar, por exemplo, necessitam de menos disciplina que as maiores. É preciso que elas sejam deixadas bem à vontade para que possam liberar sua criatividade, suas emoções, sua energia física. No entanto, embora esta seja uma época da vida em que o indivíduo tem maior oportunidade de brincar, correr e “fazer reinações” à vontade, pode-se perfeitamente começar a transmitir-lhe as primeiras noções de responsabilidade e disciplina com a organização dos brinquedos e jogos em grupo (por exemplo: arrumar os brinquedos, esperar sua vez na brincadeira, etc). Pode-se começar a dar-lhe uma rotina de vida, ensinar-lhe o respeito pelo outro, que são básicos para a autodisciplina.

2)  Crianças de escola primária precisam, por sua vez, de mais controle e direção quanto à organização e funcionamento de um grupo de trabalho, porque não estão ainda preparadas, ao nível que as tarefas desse curso exigem. À medida que aprendem a trabalhar e a pensar em grupo, a assumir parte das responsabilidades, elas vão se sentindo mais seguras até atingir determinado grau de autossuficiência e autocontrole.

3)  O educador deve ser coerente em seus métodos de ensino. Saber o que quer e não se contradizer em suas afirmativas, nem mostrar insegurança  quanto   ao  que  deve  ser feito. São exemplos típicos, pais e professores que, com muita frequência, dão determinada opinião sobre um assunto, para logo depois modificarem essa orientação. Isto não só é negativo para o orientador como para a própria criança que, ainda insegura em suas opiniões e conceitos, sente-se completamente perdida e descrente dos adultos. Mas, quando  um adulto sente que errou, o mais conveniente é ele ser sincero, corrigir o erro e se justificar. Dessa forma, terá a confiança da criança. Além disso^ é preciso que haja também coerência entre os princípios disciplinares adotados em casa e na escola para que a educação seja eficiente. (Por exemplo: os pais não podem criticar a atitude do professor para a criança e vice-versa.)

4)  A punição (prender o aluno depois   das   aulas   ou   durante   o recreio, trabalhos suplementares, reprovação escolar, entre outros) só deve   ser   aplicada   quando   forem esgotados os outros recursos para impedir a repetição de um comportamento realmente prejudicial.

5)  Uma  repreensão   verbal  que mostre insatisfação com a violação de   certas   regras   que   a   criança conhece é mais eficiente que gritos ou crises nervosas, que frequentemente deixam a criança traumatizada.

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