Tudo sobre variação linguística

Educação
abril 23, 2012

Em boa parte dos vestibulares atualmente, há ênfase em verificar se o candidato conhece os diferentes usos possíveis de nossa língua. Neste post, discutiremos esse assunto partindo da leitura do texto abaixo.

variação linguística no dia a dia

Dois homens tramando um assalto.

— Valeu, irmão? Tu traz o berro que nóis vamo rende o caixa bonitinho. Engrossou, enche o cara de chumbo. Pra areja.
—  Podes crê. Servicinho manero. É só entra e pega.
— Tá com o berro aí?
— Tá na mão.
Aparece um guarda.
— Ih, sujou. Disfarça, disfarça…
O guarda passa por eles.
— Discordo terminantemente. O imperativo categórico de Hegel chega a Marx diluído pela fenomenologia de Feurbach.
—  Pelo amor de Deus! isso é o mesmo que dizer que Kierkegaard não passa de um Kant com algumas sílabas a mais. Ou que os Iluministas do século 18…
O guarda se afasta.
— O berro, tá recheado?
— Tá.
— Então vamlá!
(Veríssimo, Luís Fernando)

No texto acima, notamos que os dois ladrões conhecem tanto as diferentes formas de falar o português como as implicações que cada forma traz. Eles sabem que certas formas são mais valorizadas que outras, por isso alteram o modo de falar na presença do guarda.
Há diferentes formas de usar a língua portuguesa, por isso não podemos dizer que ela é homogénea. Assim, o importante para o falante será perceber em que contexto deve usar cada uma de suas variantes. Em uma entrevista de emprego, por exemplo, espera-se que o falante opte por uma variante diferente daquela que ele usa para bater papo com seus amigos.
A concepção moderna de língua, segundo Celso Cunha em sua Nova Gramática do Português Contemporâneo, coloca-a “como instrumento de comunicação social, maleável e diversificado em todos os seus aspectos, meio de expressão de indivíduos que vivem em sociedades também diversificadas social, cultural e geograficamente”. Essa diversificação na sociedade faz com que surja na língua a variação linguística, ou seja, pode-se perceber que a situação (formal ou informal), o grupo social a que o falante pertence, a região e a época em que vive caracterizam o modo de um brasileiro expressar-se em português.

Variação linguística

Há vários tipos de variação, mas aqui falaremos de apenas três tipos:

  • Variação sociocultural
  • Variação geográfica
  • Variação histórica

Variação sociocultural

Variação sociocultural é aquela que se manifesta quando o uso da língua é marcado por diferenças conforme a classe socioeconômica, o grau de instrução, a geração ou a situação de comunicação em que se encontra o falante.

Variação geográfica

A variação geográfica é aquela marcada por diferenças regionais: a dimensão do Brasil permite-nos perceber diferentes sotaques, vocabulários, estruturas de frase e sentidos das palavras nas diferentes regiões.
Pessoas de diferentes regiões falam de maneiras diferentes. A essas características próprias da fala de determinado lugar damos o nome de regionalismos. Os regionalismos são próprios dos falares locais, dialetos e sotaques. Geralmente, pessoas de uma determinada região se agrupam em torno de um centro populacional economicamente ou politicamente mais relevante e assumem o dialeto característico do local. Assim, um carioca irá se expressar com o r chiado característico do Rio de Janeiro, um piracicabano normalmente emitirá um r que os estudiosos conhecem por retroflexo, e assim por diante. Essas diferenças se estenderão ao vocabulário, à estrutura das frases e até aos significados das palavras.

Variação histórica

A variação histórica acontece porque a língua vai recebendo transformações na forma de falar, novas palavras, novas grafias e novos sentidos para palavras já existentes.
Ao ler textos escritos em português há duzentos ou cem anos, você certamente sentirá um certo estranhamento e terá uma dificuldade de compreensão e fluência maior do que teria se lesse um artigo de jornal publicado na semana passada, por exemplo. Isso acontece porque as línguas variam com o tempo. O nosso você já foi vossamercê e vosmecê, chegando, em nossos dias, a ser ouvido como simplesmente “cê”. Em boa hora tornou-se embora. É fácil percebermos essas diferenças quando deparamos com livros cujas edições são muito antigas. O vocabulário de cem anos atrás não é o mesmo de hoje, a grafia de muitas palavras também não, o mesmo ocorre com a sintaxe.

Norma culta e adequação da linguagem

Você deve ter notado, então, que a língua possui diversas variantes. Mas ao tomarmos contato com a língua na escola, adotamos uma determinada variante que serve como referência. Essa variante-padrão, ao longo dos tempos e por diversos motivos, ficou sendo conhecida como a “norma culta da língua”.
Norma culta da linguagem é a chamada variante-padrão da língua; aquela variante de maior prestígio, utilizada pelas pessoas que compõem a chamada elite da sociedade. A norma culta, tradicionalmente, acaba servindo como parâmetro e sendo adotada para o ensino da língua nas escolas (a gramática), além de ser utilizada como padrão para situações de comunicação escrita e formais na sociedade. Toda língua muda com o tempo, portanto a norma culta também muda, de acordo com as modificações que ela sofre no seu uso.
Convém, assim, que o falante saiba distinguir quais são as situações em que ele deve seguir essa variante-padrão daquelas em que pode usar uma variante mais popular.

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