A história das ervas medicinais no mundo

A história das ervas medicinais no mundo
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As ervas medicinais sempre fizeram parte da história dos povos antigos. Muito antes de irmos à farmácias para buscar o alívio para alguma dor, íamos aos canteiros nos quintais ou nas matas próximas de casa apenas para buscar uma determinada erva que, por conselho dos mais velhos, sabíamos que resolveria nosso problema. Ao longo dos tempos, os mais diversos povos trataram das plantas medicinais de forma diferente e é isso que você poderá aprender na leitura deste artigo.

As ervas medicinais são usadas há milênios como fonte de cura.

China

A sabedoria milenar da China inclui um vasto conhecimento sobre as plantas. Os chineses, já em tempos remotos, classificavam as plantas de acordo com seu uso na alimentação e na fitoterapia. Os taoístas tinham grande devoção à natureza, prezavam a harmonia e o respeito a tudo o que é vivo. Eles tinham como base filosófica e religiosa a completa solidariedade entre o homem e a natureza.

Na culinária, a China acabou sendo uma grande escola para o Oriente e, mais tarde, para o Ocidente. Os chineses sempre foram hábeis na criação de novos pratos, repletos de criatividade, temperos e condimentos inusitados para os tempos antigos, como o gengibre, o alho e as sementes de gergelim.

Na China Antiga, a medicina era caracterizada por uma riqueza excepcional quanto aos detalhes. Para os chineses, o número cinco tinha um simbolismo especial, pois caracterizava o Universo com seus cinco elementos (metal, madeira, fogo, terra e água) e com os cinco principais órgãos do corpo humano (coração, pulmões, rins, fígado e baço).Além disso, faziam relações entre as plantas, cores e os órgãos do corpo humano.

Os historiadores costumam dizer que os chineses eram mais próximos da sabedoria do que da ciência. Os documentos médicos mais antigos de que temos notícia são dos chineses, que, já por volta de 3700 a.C., diziam em seus tratados de medicina que para cada doença havia uma planta que seria seu remédio natural.

A primeira farmacopeia chinesa teria sido escrita por Shen Nung, um imperador sábio que viveu entre 3700 e 2600 a.C. O imperador foi o primeiro a preparar os extratos de ervas, chegando a fazer ensaios e análises da composição, dos efeitos e das propriedades dos extratos, que eram dados com precaução aos doentes. Seu trabalho foi registrado em um livro preservado até hoje, o “Ervanário de Shen Nung”. Diz a lenda que o imperador podia observar com facilidade o que acontecia em seus órgãos, especialmente quando tomava algum de seus preparados de ervas, porque tinha o abdômen transparente.

Nos dias de hoje, a medicina chinesa mostra-se ainda muito rica no que diz respeito ao uso das plantas na saúde. Muitas das ervas de alto poder cosmético que estão sendo estudadas e usadas atualmente são provenientes da China e já eram usadas havia algum tempo por aquele povo.

A medicina chinesa influenciou muito, de início, a medicina japonesa. Esta acabou, mais tarde, trilhando seu próprio caminho, sempre com a prevalência do uso de produtos vegetais e animais nos processos terapêuticos. Por fim, os japoneses –que catalogaram mais de 800 variedades de ervas em suas práticas terapêuticas – contribuíram para influenciar a medicina do Ocidente.

Egito

A civilização egípcia teve seu apogeu em mais ou menos 3000 a.C. Já nessa época os egípcios tinham uma alimentação elaborada. Ao que parece, foram eles que inventaram a forma moderna de preparar pães e, nas grandes comemorações, chegavam a apresentar mais de 40 tipos, feitos com trigo, leite, ovos, mel e outros ingredientes.

Os governos do Antigo Egito deixaram registrados nos papiros a especial atenção que davam à alimentação. Os alimentos eram quase sempre preparados de forma ritualística e as refeições constituíam momentos muito especiais, onde todas as pessoas se reuniam, discutiam assuntos e comiam calmamente.

Essa característica peculiar pode ser comprovada pelas inscrições nas paredes das tumbas, feitas de forma cuidadosa, mostrando grandes recipientes cheios de alimentos, sempre ligados a símbolos espirituais. Na prática, os egípcios construíram câmaras especiais em homenagem aos seus deuses, onde eram colocadas oferendas de alimentos como grãos, bebidas e ervas de alta qualidade.

No Antigo Egito, a medicina sempre esteve vinculada à astrologia, e havia uma forte relação entre as plantas medicinais, planetas e signos correspondentes. Os egípcios utilizavam as plantas condimentares de muitas formas, deixando-as até mesmo nas tumbas dos faraós e personalidades importantes para que estes fizessem uma viagem segura aos outros planos de existência.

São comuns as citações dos papiros relatando a adoração que o povo tinha pelas plantas. O mais famoso deles é o Papiro Ebers, datado de 1550 a.C., que contém centenas de fórmulas mágicas e remédios populares usados na época. Esse papiro está exposto no Museu de Leipzig, na Alemanha, e contém uma coletânea de aproximadamente 125 plantas, entre elas o anis, a alcaravia, a canela, o cardamomo, a mostarda, as sementes de gergelim, o açafrão e as sementes de papoula.

A história da aspirina também pode ser traçada a partir do Antigo Egito, onde se combatiam inflamações com um extrato obtido da casca do salgueiro. Esse extrato é que,mais tarde, permitiu a síntese do ácido acetilsalicílico – lançado comercialmente pela empresa alemã Bayer, em 1899, com o nome de aspirina.

Na civilização egípcia, a cosmética também atingiu o nível de arte, voltada exclusivamente para engrandecer a beleza e o refinamento exótico que já reinava em todo o povo. Nos grandes templos, as essências perfumadas e os incensos eram oferecidos diariamente como presentes aos deuses para que estes, por sua vez, mantivessem a proteção sobre o grande faraó e todo o seu povo.

As mulheres dessa época já dispunham de grande quantidade de elementos para seu embelezamento, o qual era extremamente valorizado em todos os estratos da sociedade.Óleos e bálsamos perfumados eram dispersos no corpo ou misturados ritualisticamente em banhos.

Muitas plantas eram cadastradas como elementos ricos de promoção do bem-estar físico, tais como a camomila, que era usada em óleos de massagem para acalmar dores musculares ou simplesmente para se obter um profundo relaxamento. Suas flores eram dispersas também nas águas mornas das banheiras, proporcionando momentos únicos de prazer.

De acordo com o historiador e egiptólogo francês Pierre Montet, os cuidados com a aparência física tiveram seu auge no reinado dos Ramsés (por volta de 800-700 a.C.). Nesse período, era comum banhar-se em águas perfumadas pelo menos de manhã e antes das principais refeições. Os habitantes tinham o hábito de despejar a água sobre a cabeça e ficar dentro de uma bacia com areia e ervas aromáticas purificadoras. Juntavam, então, substâncias dissolventes das gorduras da pele, provavelmente contendo cinzas e argila. A toalete diária era usada com requinte, e havia uma preocupação excessiva com o asseio geral e com a maquilagem. As mulheres costumavam pintar ao redor dos olhos fazendo com que parecessem mais alongados. A tinta tinha ações anti-sépticas eficazes, que, além de embelezar, impediam o desenvolvimento de inflamações nos olhos, tão comuns naquela época.

Os cabelos, por sua vez, eram perfumados com essências nobres. Os cabeleireiros eram hábeis em inventar penteados exuberantes, criar tinturas únicas e produzir bonitas perucas coloridas. Além de tudo isso, eram correntes ainda os cuidados com as unhas dos pés e das mãos e o uso de verniz para cobri-las.

Os egípcios preocupavam-se muito com o odor de seus corpos e, além de perfumes diversos, costumavam fazer uma mistura de terebentina e incenso contra os cheiros fortes do suor. Essa preocupação deu origem ao desenvolvimento da arte da perfumaria. No reinado da rainha Cleópatra, amante do imperador romano Júlio César, o Egito era salpicado de perfumes raros e delicados, feitos à base de ingredientes exóticos que eram trazidos de outras regiões do Oriente.

A rainha Cleópatra obrigava suas servas a espalhar diariamente em todo o seu corpo determinados aromas que, por fim, acabaram seduzindo o grande general romano Marco Antônio, que se tornou seu marido. Existiu na época um perfume especial chamado de “cyprinum”, feito com o óleo essencial extraído das flores da hena. Outra rainha apaixonada pelos óleos e aromas foi Hatshepsut, da 18a Dinastia, que esfregava em suas pernas uma loção à base de mirra para perfumá-las. O olíbano também era tido em alta consideração e usado no Egito em perfumes, fragrâncias ambientais, fumigações, incensos e receitas médicas. Conta a história que o olíbano era proveniente da Terra de Punt, atual Somália. Um conhecido cosmético antigo para tratar das rugas era um creme feito à base de olíbano, cera, óleo de moranga fresca e grama ciperácea.

Europa/Idade média

Com a queda de Alexandria, até então o empório de especiarias mais famoso do Oriente, a Europa saiu do domínio do Império Romano e entrou na Idade Média, muitas vezes chamada de Idade das Trevas. Nessa época, a Europa Medieval sofreu uma forte mudança dos hábitos alimentares. Os vegetais passaram a ser muito pouco consumidos, dando-se preferência para as carnes, os pães e as frutas. Contudo, há algumas citações de condimentos que ainda permaneceram na culinária nesse período. Eram empregados sobretudo para disfarçar o forte salgado das carnes em conserva, além de servirem de recheios, refogados e decoração de pratos culinários.

O conhecimento das ervas e dos condimentos ficou retido nas mãos dos religiosos, que os utilizavam apenas para a medicina e a prática espiritual. As especiarias antes usadas na alimentação foram praticamente esquecidas, devido ao seu alto preço no mercado, que as tornava um artigo de luxo. Os religiosos acreditavam que esses produtos eram oriundos do Jardim do Éden, do Paraíso. Isso porque a origem dos melhores condimentos era sempre um mistério, provocando as mais diversas especulações, histórias fantásticas e lendas, que tentavam explicar de alguma forma sua procedência.

Para ilustrar isso, no século XVI, Bartholomeu de Glanville, um enciclopedista inglês, acreditava que a pimenta-do-reino era resultante do chamuscamento da pimenta-branca no fogo. De acordo com ele, a pimenta-branca era o fruto de uma árvore que nascia numagrande floresta próxima às montanhas dos Cáucasos, cheia de serpentes; dizia ainda que o fogo havia expulsado as cobras para que as pimentas pudessem ser colhidas, escurecidas então pelo fogo!

De qualquer forma, foi o trabalho minucioso dos religiosos dos grandes mosteiros que permitiu que o conhecimento das plantas pudesse ser passado para as gerações seguintes. Dentre outras coisas, os monges cultivavam as ervas em hortos e passavam grande parte do tempo fazendo cópias de manuscritos antigos que guardavam a história e a utilização das plantas medicinais.

Na Idade Média, as plantas seguiram seu uso na beleza, restringindo-se porém sua conotação mística. Nessa época, as folhas de salsa eram usadas para fazer crescer os cabelos, curar a caspa e eliminar piolhos. Além disso, eram empregadas na pele do rosto para clarear e eliminar sardas.

Também era muito conhecido o uso da alfazema, para limpar e perfumar os dedos engordurados de carne. Sua infusão era colocada em potes charmosos nas mesas de refeição logo após os grandes banquetes. Esse costume estendeu-se até o começo do século XX e abriu um grande espaço para a utilização dessa planta em diversos produtos.

Apesar de o mundo estar passando por um período sombrio para a cultura e a ciência, o imperador dos francos e lombardos, Carlos Magno (768-814 d.C.), fez uma interessante definição do que era para ele uma erva aromática: “…é a amiga do médico e o prazer do cozinheiro”. Sua atuação foi ainda maior quando ordenou que todas as “plantas úteis” passassem a ser cultivadas nas hortas imperiais da Alemanha.

Europa/Renascimento

Com o fim da Idade Média e o início do Renascimento, por volta de 1500 d.C., a botânica deu um grande salto, pois as plantas voltaram a ser catalogadas em grandes arquivos. Muitas preciosidades antigas haviam sido destruídas na época da Inquisição, principalmente com os incêndios provocados em diversas bibliotecas secretas. O que sobrou da Idade Média foram apenas retalhos de uma grande história mágica e científica.

No século XVI, um suíço chamado Philippus Aureolus Theophrastus – mais tarde conhecido como Paracelso – viajou por toda a Europa à procura de plantas e minerais, mas principalmente ouvindo feiticeiros, curandeiros e parteiras. Para grande escândalo das pessoas cultas, ele não escrevia suas observações em latim, mas em linguagem comum, e tinha a audácia de comparar importantes estudos médicos com a sabedoria popular.

Paracelso, fundador da alquimia, foi o precursor dos conceitos modernos da influência cósmica sobre as plantas e suas relações com os quatro elementos –água, terra, fogo e ar. A botânica secreta de Paracelso até hoje exerce grande atração sobre estudiosos do assunto e foi base, juntamente com a filosofia teosófica, para o desenvolvimento dos conceitos biodinâmicos da agricultura antroposófica, elaborados mais tarde por Rudolf Steiner. No final da Idade Média, os europeus haviam entrado em decadência em relação aos hábitos de higiene. Começou uma fase ascética, em que os cuidados com a alma inibiram o gosto pelo tratamento e pela beleza física. Nesse período, no entanto, houve a maior evolução da arte da perfumaria, que era necessária para disfarçar o mau cheiro e hálito das pessoas.

Um famoso creme de beleza feito à base de polpa de maçã e folhas de alecrim, denominado “pomatum”, surgiu nessa época e se tornou muito popular por volta do século XVI na Europa.

Com o fim da Idade das Trevas, muitos estudiosos, a exemplo de Paracelso, voltaram a se dedicar de corpo e alma ao estudo da botânica, medicina e beleza. O médico e astrólogo inglês Nicholas Culpeper (?-1654) desenvolveu estudos vastos que atravessaram os tempos até chegar a nós. Ele afirmava, incondicionalmente, que os condimentos eram capazes de curar todos os tipos de doenças com seus potentes óleos essenciais. Dentre outras coisas, dizia que as pimentas, quando misturadas ao nitrato, eram capazes de fazer desaparecer as manchas, as marcas e o descoloramento da pele.

Na França, o ponto forte foi o desenvolvimento da perfumaria. Por volta de 1379, em Paris, as monjas da Abadia de Saint-Juste criaram a famosa Água de Carmen, elaborada àbase de folhas de erva-cidreira, limão, noz-moscada e cravo-da-índia. Na Grã-Bretanha, a família anglo-galesa Tudor, que reinou de 1485 a 1603, tinha grande devoção às ervas e plantas. A dedicação aos estudos das ervas e aromas é hoje um ponto muito forte da atual Inglaterra, que herdou muitos conhecimentos importantes de seus ancestrais. Nessa região desenvolveram-se exímios jardineiros, com lindos projetos de jardins, que envolviam plantas aromáticas perenes, como o alecrim, o tomilho, a lavanda e o hissopo. Essas plantas eram utilizadas na preparação de apetitosas saladas, feitas com folhas, flores e frutos, frescos ou desidratados.

Europa/Idade moderna

Na Idade Moderna, a história dos condimentos foi marcada por muito sangue, guerras e lutas pelo poder e monopólio. Os países do continente europeu estavam cansados dos altos preços das especiarias e saíram em busca de novas partes do mundo. Afirmam alguns historiadores que foi o alto preço da pimenta-do-reino no mercado europeu que estimulou a expedição do navegador português Vasco da Gama, assim como a inveja do poder de Veneza foi o motivo pelo qual Espanha e Portugal saíram em busca do cravo-da-índia, do gengibre, da noz-moscada e da pimenta-do-reino.

A quebra do monopólio veneziano, portanto, se iniciou com as grandes navegações. Assim, os portugueses e espanhóis, quando encontraram o caminho que levava às Índias, fizeram chegar ao continente europeu muitos condimentos exóticos, que logo se espalharam por várias regiões, incorporando-se à culinária de muitos povos.

Mas foi um explorador francês, de nome Pierre Poivre (1719-1786), que definitivamente acabou com o poderio dos comerciantes do Oriente. Pesquisador exímio de especiarias, fez muitas viagens pelo mundo e acabou alcançando a Ilhas Maurício, onde encontrou milhares de sementes de noz-moscada e de muitas outras espécies. Conclusão: os condimentos se espalharam velozmente pela Europa, os preços no mercado baixaram e, enfim, as plantas aromáticas se tornaram disponíveis para todas as classes sociais. Foi o início da popularização dos condimentos.

Nessa época, a alimentação era considerada monótona e desinteressante e as especiarias acabaram tendo um papel importante na inovação de sabores e aromas, em todas as cozinhas. Não se pode negar que os condimentos exerceram grande influência na cozinha europeia, pois é muito difícil imaginar uma paella espanhola sem açafrão, um goulash húngaro sem a páprica ou ainda um steak au poivre francês sem a pimenta-do-reino.

Grécia

As plantas da Europa, mais precisamente da região mediterrânea, influenciaram de forma considerável os hábitos alimentares e terapêuticos de algumas civilizações. A primeira a receber essa influência foi a civilização grega, com a introdução na dieta de condimentos que nasciam de forma espontânea nos campos, vales e montanhas, como o alecrim, o manjericão, a manjerona e a salsa.

As especiarias trazidas da Índia e de outras civilizações distantes também tiveram um papel importante na culinária da Grécia Antiga, pois havia na época um intenso intercâmbio de produtos com o Oriente, por meio dos navegadores e comerciantes.

Para os gregos, as plantas aromáticas tinham o seu simbolismo: cada erva possuía um significado especial, como fidelidade, nobreza, amor e prazer. Esses conceitos mais tarde foram levados para a Europa Ocidental e para as cortes da França medieval.

A medicina da Grécia Antiga tinha um caráter mágico e sacerdotal, normalmente envolvida em fábulas e mitos. Os filósofos eram extremamente interessados no estudo do espírito e do corpo. Os hábitos de higiene corporal e mental eram sempre baseados no uso e experimentação de misturas das mais diversas plantas. As folhas de louro eram usadas tanto em banhos para limpar o corpo como na forma de incensos para purificar o ar dos grandes templos, permitindo a meditação profunda dos religiosos.

Os cuidados de saúde da população eram feitos em santuários de cura espalhados por todos os lugares que dispunham de banhos especiais, alamedas cobertas de flores, aromas diversos pairando no ar e músicas melodiosas que acalmavam os ânimos mais agitados. Nessa época, era comum o emprego de ervas na preparação de ungüentos e bálsamos para massagear a pele dos heróis e guerreiros quando retornavam das batalhas. Era o caso, por exemplo, da alfazema, com seu perfume embriagador e delicado.

O filósofo Aristóteles (384-322 a.C.) e seu discípulo e amigo Teofrasto (370-286 a.C.) criaram o primeiro sistema científico de classificação botânica. De acordo com esse sistema, as plantas eram divididas segundo seu porte, em ervas, arbustos e árvores.

O historiador grego Heródoto (484-426 a.C.), conhecido como o Pai da História, descreveu em seus documentos diversos alimentos que eram conservados com vinagre e especiarias. Acreditava ele, por exemplo, que a utilização de flores secas de cardo-mariano teria o poder de coagular o leite para a fabricação de queijo.

A utilização de plantas medicinais nessa época era muito comum na alimentação e na aromatização de bebidas. Havia, por exemplo, um licor de água de rosas que era misturado com ervas aromáticas e ingerido após as refeições. Nos escritos de Aristófanes, poeta cômico ateniense (meados de 450 a.C.) encontram-se citações de numerosos vegetais frescos e condimentos usados em sua época, a exemplo do alho, anis, cardo-mariano, rábano, tomilho e alho-porró. Hoje em dia, o cardo-mariano tem seu uso restrito à terapêutica.

No herbanário do médico grego e farmacologista Pedanius Dioscórides (512 d.C.) há informações sobre o uso de um óleo feito àbase de lírios, que tinha o poder de melhorar a aparência da pele. Sua obra principal, De matéria médica, foi a fonte mais clássica para a terminologia da botânica moderna até o século 16. Outros cosméticos vegetais eram utilizados para esse fim, elaborados à base de acácia, tamareira, alfarrobeira, zimbro, romãzeira, palma, sicômoro, anêmona, assa-fétida, genciana, benjoim e outros, misturados a trigo, aipo, alho, cebola, pepino, melão e cevada.

Índia

Uma das mais antigas civilizações, a Índia sempre teve sua medicina dirigida para o uso das plantas e dos produtos de origem natural. A sabedoria hindu está toda registrada nos Vedas, um acervo escrito em sânscrito. O Yajur-veda, que é uma das divisões dos Vedas, contém muitas informações voltadas para a medicina e sua ética, com a predominância do uso de ervas e produtos naturais. Na Índia do ano 1000 a.C. encontramos o apogeu das ervas medicinais e mágicas. O principal objetivo da medicina hindu era prolongar a vida, e a principal fonte de conhecimento eram as ervas, filhas diletas dos deuses. Só podiam ser colhidas por pessoas puras e piedosas, e deviam crescer longe da vista humana e do pecado. Eram usadas basicamente de duas maneiras, uma para limpar o corpo e estimular as secreções e outra como sedativo.

Charoka, famoso médico indiano e profundo conhecedor da astronomia, dividiu a medicina em oito partes, uma delas dedicada ao rejuvenescimento. Dentro de seus estudos, Charoka divulgou mais de 500 remédios elaborados à base de plantas e os recomendou também para prolongar a vida e reduzir o peso em casos de obesidade.

A história da Índia também se mostra bastante rica em relação à utilização de condimentos e especiarias, empregados desde tempos imemoriais em dietas alimentares especiais para o tratamento e prevenção geral de doenças. No tempo do rei Asoka (273232 a.C.), um dos grandes imperadores do país, os enfermeiros eram obrigados a ter um conhecimento aprofundado da arte culinária e do preparo de remédios.

É muito clara a relação direta existente entre a medicina e a alimentação nessa época. Esses conhecimentos e práticas curativas, pela importância que tiveram, foram a base sólida para a formação da medicina ayurvédica e da fitoterapia, hoje expandidas pelo mundo todo.

A Índia é um país que apresenta uma culinária muito diversificada, diferindo de região para região. É considerada a mais aromática de todas as culinárias do mundo, tendo como base a mistura de condimentos chamada de “masala”. Os condimentos mais comuns são o cominho, o cravo-da-índia, a canela, a mostarda em grão, a pimenta-doreino, o açafrão, o cardamomo e o gengibre.

As preparações culinárias indianas são mundialmente conhecidas pelo seu caráter picante e bem-temperado, devido à grande utilização da pimenta, do gengibre e do caril, também conhecido por curry, que é elaborado pela mistura de vários condimentos. O caril acabou tendo sua fama espalhada também no Ocidente, incluindo o Brasil, onde poucos conhecem realmente sua completa composição. Apesar de as pimentas serem ingredientes sempre presentes nos preparados, é bom lembrar que elas só foram realmente introduzidas no país no século XVI por mercadores portugueses.

Devido ao tamanho territorial e à diversidade de clima existente no país, indo do temperado ao tropical, a Índia sempre teve condições de cultivar diversas espécies aromáticas, que deram uma enorme contribuição culinária ao mundo. Essas espécies eram comercializadas em várias regiões do mundo pelos navegadores, mantendo essa tradição de exportação de seus produtos até a atualidade. Para o hindu, a utilização apropriada e criteriosa dos condimentos é vista, ainda hoje, como uma arte complexa e especial. Em sua cultura, principalmente por ser um povo extremamente religioso, consideram o alimento um presente de Deus para a manutenção do corpo físico. Ocorre também o surgimento de lendas e histórias ao redor de algumas plantas, que acabaram se tornando um tabu para algumas sociedades. É o caso da cebola, do alho, do nabo e dos cogumelos, que não faziam parte da alimentação cotidiana das classes mais elevadas da sociedade indiana.

Outra curiosidade é que na Índia, após as refeições, tem-se por hábito mascar folhas de “paan”, também conhecido por bétel, que atua como digestivo e calmante. Encontra-se à venda normalmente em forma de tabletes enriquecidos com substâncias exóticas como açafrão, almíscar, fumo socado com água de rosas e mesmo folhas de coca.

Mundo árabe

A Arábia tem uma história marcante no que diz respeito aos condimentos. Muito de sua prosperidade foi baseado no comércio de especiarias, feito por enormes carregamentos para as regiões do Ocidente. A famosa história das Mil e Uma Noites é um rico arquivo de citações de diversas ervas condimentares de efeito afrodisíaco e com propriedades mágicas.

Os árabes introduziram e popularizaram no Ocidente muitos condimentos, tais como o anis, o cominho, a canela, a noz-moscada e outros, os quais acabaram se incorporando à culinária espanhola. As especiarias alcançavam altos valores no mercado da época e eram normalmente reservadas ao consumo das classes privilegiadas da sociedade. Uma libra de gengibre, por exemplo, valia uma ovelha. Com uma libra de cravos-da-índia era possível comprar uma vaca. Um saco de pimenta-do-reino, valiosíssima, chegava a valer a vida de um homem.

A medicina árabe, como em todas as outras civilizações antigas, também era ligada à religião. Dava-se também muita importância à higiene pessoal e eram rotineiros os banhos. De acordo com um dos versículos do Alcorão, a essência da vida era constituída por abluções, perfumes e orações.
As mulheres dos haréns do norte da África e do Oriente Médio, principalmente as turcas,perfumavam seus hálitos e eliminavam o odor desagradável do corpo com banhos e loções feitas com as sementes do feno-grego.

Palestina e Babilônia

A tradição simbólica das plantas na Antiga Palestina sempre esteve vinculada a citações bíblicas e suas respectivas interpretações. O Antigo Testamento cita cerca de cem espécies de plantas, entre elas ervas, árvores e flores, utilizadas não só na alimentação, mas também na medicina –como a mandrágora –e de forma ornamental. Muitas dessas espécies eram usadas como condimentos para enriquecer o aroma e o sabor de pratos feitos nas cerimônias religiosas.

Podemos encontrar referências, por exemplo, da utilização do coentro, do alho, da cebola, do alho-porró, do açafrão, do cominho e da canela, entre outros. Na Antiga Palestina, cerca de 1.800 a.C., há outra referência bíblica: os descendentes de Abraão que rumavam a Canaã, conduzidos por Moisés, eram alimentados apenas pelo maná , que encontravam no deserto. Maná era o nome dado à resina da tamareira que, ao amanhecer, pendia como gotas de orvalho nas pedras e ervas, doces como o mel.

Para o povo judaico, o alimento desempenha até os dias de hoje função muito importante nas cerimônias religiosas, apresentando um rico simbolismo. É interessante notar que os hábitos e preceitos alimentares judaicos influíram muito na formação de preconceitos gastronômicos em várias partes do mundo.

Na civilização judaica antiga, os sacerdotes acreditavam num Deus único e não havia lugar para superstições. A higiene era um fator importante e definida pela Lei Mosaica, que ditava preceitos da época. Com seus conhecimentos, os judeus deixaram um rico legado no que diz respeito à higiene e à medicina preventiva. Eram comuns também os banhos purificadores e ritualísticos, com o uso abundante de plantas e aromas.

Os perfumes eram imensamente apreciados e usados com reverência não só pelos religiosos, mas também por toda a população. Em descobertas recentes, foi encontrado no mar Morto, juntamente com os famosos manuscritos, um frasco intacto de bálsamo perfumado.

Na Babilônia, uma das mais conhecidas referências do uso de plantas medicinais está ligada ao rei Nabucodonosor, que mandou construir os Jardins Suspensos – a 7ª Maravilha do Mundo Antigo. De acordo com registros históricos, Nabucodonosor teria ordenado a plantação de alecrim e açafrão nos jardins, junto com rosas.

Roma

Em Roma, a presença das plantas medicinais e aromáticas também foi marcante. Pode-se dizer até que foram os romanos que definitivamente deram aos condimentos seu verdadeiro papel na culinária. Apesar de algumas civilizações terem ensaiado seu uso, foram os romanos que mais utilizaram os condimentos e ervas na cozinha. Além disso, eles estavam por todos os lados: nos pratos, na decoração, nas bebidas, nos incensos etc. Guirlandas de ervas aromáticas eram primorosamente elaboradas para enfeitar as festas e os banquetes, acreditando-se que isso evitaria a ressaca, tão típica daqueles excessos.

Na concepção do poeta latino Ovídio (meados de 20 a.C.), os primeiros alimentos do homem foram as ervas. Os escritos filosóficos antigos mostravam quão íntima era a relação do homem com a natureza. As anotações do naturalista e escritor latino Plínio (século I d.C.) mencionam algumas plantas que eram cultivadas em hortas e consumidas na alimentação da época. Dentre elas, podemos destacar a cebola, a sálvia, o tomilho, o alho, o coentro, o manjericão, o anis, a mostarda, a salsa, a hortelã, a pimenta-do-reino, o cominho, as sementes de alcaravia e de papoula.

Com a queda de Roma no século 5 d.C., o mundo islâmico passou a dominar o comércio do Oriente. Foi Avicena (980-1037), um renomado médico do Oriente, quem descobriu o método de destilação para extrair os óleos essenciais das plantas aromáticas, além de ter sido fundador de um sistema único de medicina, que depois se espalhou pelo mundo inteiro.

Em Roma, a medicina antiga foi formada com base na grega, absorvendo muitos de seus conhecimentos. Nos primeiros anos da era cristã, o famoso botânico e herborista Dioscórides divulgou muitos trabalhos sobre o poder curativo das plantas. De acordo com eles, há informações sobre um famoso óleo de lírios usado para aquecer, suavizar e desobstruir a pele, indicado especialmente para casos de inflamação.

Os homens e as mulheres preocupavam-se muito com os cuidados do corpo e não abriam mão de poderosos tratamentos elaborados com plantas, óleos, pomadas e ungüentos. Usavam em abundância as essências aromáticas, os banhos de leite e as máscaras de beleza feitas de frutas e ervas, que normalmente eram misturadas a fermento e farinha. Ainda em Roma, o médico Galeno utilizava óleos vegetais especiais para preparar o “ceratum refrigerans”, cosmético que ficou famoso através dos tempos pelos benefícios que trazia à pele. Os perfumes também eram bastante utilizados pelos romanos, como os perfumes feitos à base de hortelã-pimenta (para os braços), de manjerona (para as sobrancelhas) e de alecrim (para os cabelos).

As frutas, como não podia deixar de ser, também eram empregadas na beleza. É o caso da maçã, usada juntamente com a lanolina em cremes de beleza para o rosto e corpo. Acreditava-se ainda que a polpa da maçã era capaz de eliminar verrugas. Os filósofos e poetas gregos e romanos, dentre eles Hipócrates, Teocrastos e Horácio, tinham um interesse especial por produtos que alteravam a coloração do rosto, ora branqueando-o, ora colorindo-o. Em Roma, dava-se também muita importância ao asseio pessoal e à higiene. Os balneários eram espalhados por todas as partes, em residências particulares, públicas e em prédios do Estado. Acreditava-se que os banhos de erva cidreira tinham o poder de devolver a juventude, dar energia e prevenir a calvície.

1 Comment

  • Reply Ablima agosto 4, 2014 at 2:44 am

    Os diversos tipos de plantas medicinais presentes na natureza são remédios naturais que curam e fazem bem.

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